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Vida Ferida

Ao ouvir o diagnóstico “você tem diabetes!”, a maioria das pessoas reage imediatamente com a preocupação: “não vou mais poder comer doces!”. Mas o problema é muito maior e exige cuidados que vão além da simples restrição alimentar e injeções de insulina. A falta de informação costuma ser um dos piores inimigos dos diabéticos, levando a complicações secundárias da doença que tomam conta de suas vidas. Muita dor, incapacidade e graves problemas psicológicos fazem parte da realidade de milhares de diabéticos no Brasil e no Mundo que desenvolvem a chamada ferida do pé diabético. Uma complicação em diabéticos com níveis glicêmicos descontrolados que começa com um pequeno ferimento, podendo evoluir para uma úlcera crônica, que pode levar a amputações e até à morte.

Estima-se que entre 5% a 6% da população mundial desenvolverá diabetes. Essa prevalência é similar para o Brasil. São cerca de 371 milhões de pessoas no mundo todo com diabetes e a previsão para 2030 é de 552 milhões. No Brasil, cerca de 11 milhões têm diabetes, sendo 7,5 milhões diagnosticados.

E os números continuam alarmantes. A cada ano, a previsão é de que 5% dos diabéticos desenvolvam uma úlcera e, deste total, 1% sofra amputação. Dos que sofrem amputação, estudos indicam que 70% não sobreviverão aos cinco anos subsequentes.

No Brasil, o diabetes é responsável por 70% das cirurgias para retirada de membros, de acordo com o Ministério da Saúde. Isso corresponde a aproximadamente 55 mil diabéticos amputados por ano. Mas o que esses números, estatísticas e previsões significam para o paciente?

É preciso voltar um pouco. Antes da amputação vem a lesão. O convívio com a ferida, o desconforto físico, a dor. E fora os aspectos físicos, há os psicológicos, que são devastadores. A reclusão, o afastamento do convívio social, a vergonha de ter uma ferida aberta e dolorosa, a incapacidade laboral. A úlcera afeta a autoestima e assim o relacionamento com outras pessoas, levando, muitas vezes, à depressão.

Difícil imaginar uma vida marcada por uma ferida. Mas o diabetes mal controlado provoca problemas circulatórios e de cicatrização. Por isso a rotina de cuidados é pesada, frequente e trabalhosa. E mesmo com o tratamento adequado, o processo de cicatrização das lesões varia de caso para caso, podendo levar meses para a completa regeneração. Então além do convívio desgastante com o problema ainda há os aspectos financeiros. Os gastos para o tratamento da ulcera diabética, com completa cicatrização, estima-se que gira em torno de US$7 mil e US$10 mil.

Mas apesar deste cenário adverso, há alguns anos tenho convivido e testemunhado um cenário de esperança para os pacientes com ferida do pé diabético no Setor de Dermatologia da Santa Casa de Curitiba. Uma iniciativa inovadora trouxe expectativa de cura a dezenas de pacientes que atendemos diariamente no hospital, com resultados surpreendentes.

Pesquisadores da indústria paranaense Phytoplenus desenvolveram uma tecnologia inovadora que permite a produção de insumos farmacêuticos à base de bioativos vegetais de elevada eficácia no processo de regeneração dérmica. Esses insumos são fitocomplexos que utilizam como matéria prima a Calendula officinalis, planta que apresenta ação cicatrizante e anti-inflamatória, cujas propriedades terapêuticas são reconhecidas há milhares de anos e recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e aprovadas pelo Ministério da Saúde.

No ano passado começamos um estudo clínico com um grupo de pacientes com ferimentos crônicos e os resultados são impressionantes. Conseguimos não só tratar os ferimentos, fechando feridas de 10, 20 e 30 anos de pacientes de úlceras venosas, como evitamos dezenas de amputações de pacientes com úlceras diabéticas. Os custos são menores e a dificuldade do tratamento é mínima. A vida desses pacientes, definitivamente, teve um novo começo, um marcante resgate de sua dignidade.

Nossa esperança é que este tratamento, desenvolvido aqui no Paraná, alcance todo o Brasil e contribua para reduzir as atuais e desanimadoras estatísticas de ferimentos crônicos críticos, como as úlceras diabéticas. Transforme essas lesões que ferem toda uma vida em algo passageiro. Qualidade de vida e não mais uma vida marcada, uma vida ferida.

Marcos Winter é dermatologista da Santa Casa de Curitiba e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. É coordenador da pesquisa clínica com a medicação à base dos insumos de bioativos da Phytoplenus


Fonte: Folha de Londrina